Oct 10, 2014

Laranja revolution

Dani nunca foi muito de laranja. Lááá em tempos de um passado remoto, que parece ter acontecido há trocentos anos e na verdade nem foram dois, ele não curtia. Mãe perde mesmo a noção de tempo e acha que dois anos são vinte. Enfim, voltando ao assunto, sabe aquela ideia do suquinho de uma laranja, às vezes até lima? Não rolava. E eu sempre ficava pensando em como contornar a situação.

O mesmo aconteceu com melão, e fiz bolinhas divertidas, super sucesso. Postei no Instagram há um tempão e podia jurar que tinha colocado a foto aqui no blog... Mas não achei. Então lá vai, foto com quase um ano de atraso! Comprei este utensílio fofo com um nome mais óbvio impossível - melon baller - lá em NY, mas dá para encontrar por aqui também.

E voltando à laranja, depois de um tempo, descobrimos que ele se encantou pelas tangerinas descascadas, sem bagaço. Uma vovó super paciente descascou gomo por gomo, e muitas laranjas começaram a ser devoradas.

Aí lembrei das tal supremes. Aprendemos no curso de gastronomia que as supremes são os gomos dos cítricos cortados com uma faca, sem bagaço nem casca. Sempre falo nas aulas de como tirar a casca da laranja para usar em doces ou mesmo em uma receita de lagarto assado, e comparo com a famosa laranja da feijoada, aquela das rodelinhas.

Pois esse bicho começa como as laranjas da feijoada. Tiramos as cascas, sem deixar o bagaço. Em vez de cortar pedaços contra os bagaços internos, tiramos o "recheio" com uma faquinha pequena, deixando o gomo inteiro, no formato meia-lua. E vamos ser sinceros por aqui: eu sempre achei isso bem intútil. Ou melhor, nem tão inútil, mas com usos bem limitados.

Eu faço supremes de limão, corto em pedacinhos bem pequenos e sirvo em cima de uma mortadela dobrada. Pode ser no salame também, dobrado em 4, num formato triangular. Ó a dica do aperitivo! Basta espetar um palito e pronto, não tem nada daquela lambança de limão espremido, gente sujando os dedos, espirrando limão para todos os lados e saindo com medo de tomar um solzinho e ficar com bronzeado da mariposa que pousou na cara.

E juntando tudo isso, consegui achar um jeito que servir a laranja para o Dani que ele ama: super-supremes-surpresa! São 3 passos simples:


1. Tirar a "tampa" da laranja dos dois lados, para deixá-la reta na tábua;
2. Descascar toda a laranja, deixando sem bagaço;
3. Cortar, com uma faca bem afiada, ao lado de cada gomo. Para o Dani, eu ainda corto ao meio, fica um tamanho melhor para ele comer sozinho, sem engasgar.

Oct 6, 2014

Macarrão chique pro domingão

Em tempos de tantas desgraças, tanto ódio entre pessoas, tantas críticas, tanta falta de água, tantos políticos, tanta exaltação em relação às opiniões e aos gostos políticos, eu faço uma pausa nos posts de Barcelona para falar do macarrão de ontem.

Sim, porque eu não aguento mais ler, falar e pensar em tanta coisa chata. A comida alegra, anima, muda o tópico, deixa as pessoas menos mal-humoradas.

Tem gente que olha e pensa: "Mas noooooossa? Camarão? Até parece que farei essa receita chique e cara. E ainda com lula? É tão difícil fazer, vai ficar borrachuda, nem vou tentar" Pois eu truco.

Comprei os camarões e lulas na barraca de peixe ali da feira perto de casa no sábado. Peguei a maior lula, que custava R$36/kg. E os camarões, não o mais pitico, mas não eram grandes, e custavam R$37/kg. Com R$32,00, comprei 4 lulas e 300g de camarão, que servem super bem 4 pessoas.

Nas minhas aulas, eu sempre falo sobre o descarte de ingredientes que podem ser usados e a gente nem lembra. Mas tá, né? Ninguém gosta de jogar comida fora, então vamos aos exemplos. Talos de salsinha bem picadinhos são um ótimo tempero, que podem ser refogados com a cebola e dão uma cor linda ao prato final. Eles também dão um super sabor aos caldos. Tá dando sopa ali, mas não tem mais nada, fora uma preguiça imensa de picar os tais talos? Jogue estes talos na água do arroz, nem precisa picar. Tire assim que estiver pronto, e o arroz-nosso-de-cada-dia ficará com um sabor diferente. Vai fazer um caldo de mandioquinha e tirou as folhas para decorar no final? Então coloque os talos enquanto a mandioquinha cozinha.

Pensando nesse aproveitamento dos produtos que vão pro lixo, pedi para o peixeiro separar as cascas dos camarões e me entregar. E sabe, você até pode comprar só o peixe e perguntar se tem cascas de camarão ali. Na barraca que fui, tinha uma caixa enooorme com um monte de cascas que seriam descartadas. Um caldo de camarão dá um up em muitos pratos, e é super simples de fazer. Se a grana está curta, peça um monte de cascas de camarões, faça um belo caldo, coloque em um risoto e finalize com alguns poucos camarões por cima ou picadinhos no meio!

Para o caldo, eu usei:
1 colher de sopa de óleo
Cascas de camarão (usei as cascas retiradas de 300g)
2 cenouras cortadas em rodelas
1 cebola cortada em quartos
1 dente de alho inteiro
1/2 xícara de caçhaça
Sementes de mostarda (opcional)
3 talos de salsinha
3 ramos de tomilho
Grãos de pimenta rosa (ou do reino)

Em uma panela, esquente bem o óleo e frite as cascas de camarão até mudarem de cor. Acrescente as cenouras, cebola e alho e frite um pouco mais, até começar a formar uma crostinha marrom no fundo da panela. Com cuidado, para não flambar sua mão, despeje a cachaça e misture, desgrudando todo o fundo, até secar bem. Cubra os ingredientes com água fria e adicione as sementes de mostarda, salsinha, tomilho e grãos de pimenta. Deixe cozinhando por 1h30, com cuidado para a água não secar. Depois é só coar o caldo, que pode ser congelado em potes pequenos ou forminha de gelo.

Tá aí, um caldo super chique com pouco dinheiro. Eu tinha em casa também umas sementes de juniper e coloquei ali no caldo. Vale lembrar que a gente nunca salga um caldo, para ajustar só na receita final!

Bom, e aí, né? Aprendemos o caldo com cara de fino, mas e o tal do macarrão?

Peguei uma frigideira larga e coloquei um fio de óleo para esquentar. Quando estava bem quente, joguei os camarões até mudarem de cor. Virei para o outro lado, deixei mais uns 10-15 segundos, e tirei da panela. Sim, é MUITO rápido. Este é o segredo, jamais cozinhar demais. E vale lembrar que depois, com o calor do macarrão, ele vai cozinhar mais um pouco.

Sai camarão e, na mesma frigideira, entra a lula. Elas ficaram 45 segundos ali, misturando levemente, tempo suficiente para mudarem de cor. Só depois de cozidas é que levam sal. O sal retira a umidade, e deixa a carne mais dura.

Pronto, camarão e lula selados, O macarrão capellini foi para a água fervente com sal e ficou lá 3 minutos. É o tempo da embalagem para um macarrão al dente, e como depois ele vai cozinhar um pouquinho mais, levamos a sério e com cronômetro.

Naquela frigideira em que selamos o camarão e a lula, coloquei 1/3 de xícara do caldo de camarão, deixei ferver e adicionei o macarrão (suficiente para 4 pessoas, aproximadamente 400g). Quando o caldo quase secou, foi a hora de voltar o camarão e a lula, e deixar mais uns 30 segundinhos para esquentarem. Desliguei o fogo, ajustei o sal, coloquei um fio de azeite e salsinha picada. Pronto!

Oct 3, 2014

Barcelona - parte 2

Barcelona é realmente uma cidade incrível. Lá vem a deslumbrada, mas me apaixonei. Depois de uma viagem puxada, daquelas em que a gente literalmente senta e chora de exaustão em algum canto do aeroporto, fomos recebidos por um calor agradável e um taxista educado. Eu sei, nossos padrões mudam depois de algumas idas e vindas de NY, em que taxistas educados vira um plus para a cidade.

A escolha de ficar em um apartamento foi com certeza um dos melhores pontos da nossa viagem. Tivemos o luxo de estar super bem localizados, em um apartamento espaçoso, com varandinha para fazer bolhas de sabão, dois quartos e uma cozinha aconchegante. Podíamos deixar na geladeira uma manteiga gostosa para passar no pão, um leite gordo e nada UHT para colocar no café... E também estocar muita comida, tanto para nós quanto para o Dani. E não, eu não passei hoooooras na cozinha, os ingredientes eram incríveis e incorporei a praticidade das tapas, comprando pães frescos, algumas coisinhas que precisavam de pouco preparo e pronto.

Ali ao nosso lado, tínhamos um mercado super legal chamado [Mercat de La Concepció]. Imaginem barracas de frutas frescas, legumes e carnes, massa fresca com molho caseiro e burrata a alguns quarteirões de casa! (Parênteses aqui que sim, eu chamo de "casa" o local onde estou hospedada. Eu volto e vou pra casa, levo coisas pra casa e fico em casa, tá?) E, pra completar, o andar debaixo do mercado tinha um supermercado para aquelas coisas básicas como papel toalha, água e arroz. Eles até entregavam, mas para ninguém ter que ficar esperando pelo delivery, o Dani voltou a pé ou no colo e o carrinho dele virou um excelente meio de transporte de sacolas reutilizáveis cheias de coisas.

Mary's Market
Bem pertinho, no quarteirão ao lado de casa, tínhamos o [Mary's Market], um empório fofo, cheio de produtos maravilhosos e não uma, mas três opções de jamón! Foi de onde veio o sal, o azeite e todos os ingredientes do nosso primeiro dia. Sabe aquele dia de cão em que você chega fedendo avião? Sim, eu uso essa frase, eu sinto um cheiro exclusivo de avião em mim quando passo muito tempo dentro dele. Mas voltando, aquele primeiro dia em que você desempacota malas sem fim, sem ter dormido nas últimas 30 horas, e só quer comer alguma coisinha antes de dormir? Um simples pão crocante com jamón e muita água?

Boldú
Ali pertinho também descobrimos a [Boldú], uma padaria simpática, de onde compramos alguns pães e doughnuts maravilhosos. Eu também fui pega de surpresa por esses doughnuts, algo que não imaginei comer na Catalunya. Outro achado delicioso foi uma amêndoa coberta por uma camada de caramelo crocante, praliné e cacau em pó da [Colmado Quilez], uma mercearia cheia-cheia-cheia de coisas, vinhos, chocolates, biscoitos, de onde trouxe muito mais coisa do que devia e poderia de volta ao Brasil.

Outra descoberta foi um café bem comum por ali chamado Il Caffe di Francesco. E melhor ainda foi provar um tal de biberó, que na sua simplicidade se resume a um espresso com leite condensado. Nem me venham os cri-cris de plantão dizendo que café bom se toma puro, sem adoçar, tá? Café bom é o café bom pra gente, e o meu vem recheadinho de leite condensado!

E fala sério! Será que esta pessoa que lhes escreve não fez nada mais além de comer, visitar lugares de comida e ficar em casa comendo? Eu fiz sim, mas eu já disse antes aqui e repito: uma boa viagem para mim quer dizer pelo menos 60% do tempo gasto em boas experiências gastronômicas.

Então entre um mercado, restaurante e lanchinho, fomos visitar a Casa Battló, a Sagrada Família, Parc Guell... Com pausas para cafés, galettes e sorvetes deliciosos! Vamos combinar que as dicas turísticas qualquer um encontra em um guia de viagens. Mas a gente tem que contar que esbarrou com uma linguiça artesanal acompanhada de cerveja gelada, com um sorteve caseiro em uma ruazica de nada, e quem sabe mais gente vai poder lambuzar os dedos - próprios e dos filhos! - como nós fizemos!