Aug 27, 2013

Texto: Conversa entre crianças

Não sei quem irá ler esse texto depois de tanto tempo sem escrever. Passei por uma cirurgia que me deixou por quase dois meses de molho. Ainda não consigo me aventurar muito, comilanças ficaram bem limitadas às refeições caseiras e olhe lá.

E nesse tempo, li um texto em um dos livros da Elizabeth Monteiro que achei super legal. Não é muito curto, mas vale a pena! E se vamos exterminar os paus nos gatos, que assassinemos de uma vez as Cucas e os Anjos destruidores de relacionamentos!

- E aí, véio?
- Beleza, cara?
- Ah, mais ou menos. Ando meio chateado com algumas coisas.
- Quer conversar sobre isso?
- É a minha mãe. Se lá, ela anda falando umas coisas estranhas, me botando um terror, sabe?
- Como assim?
- Por exemplo: há alguns dias, antes de dormir, ela veio com um papo doido aí. Mandou dormir logo se não uma tal de Cuca vinha me pegar. Mas eu nem sei que é essa Cuca, pô. O que eu fiz pra essa mina querer me pegar? Você me conhece desde que eu nasci. Já me viu mexer com alguém?
- Nunca.
- Pois é. Mas o pior veio depois. O papo doido continuou. Minha mãe disse que quando a tal da Cuca viesse, eu ia estar sozinho, porque meu pai tinha ido pra roça e minha mãe, passear. Mas, tipo, o que o meu pai foi fazer na roça? E mais: como minha mãe foi passear se eu tava vendo ela ali na minha frente? Será que eu sou adotado, cara?
- Como assim, véio?
- Pô, ela deixou bem claro que minha mãe tinha ido passear. Então ela não é minha mãe. Se meu pai foi na casa da vizinha, vai ver eles dois estão de caso. Ele passou lá, pegou ela e os dois foram passear. É isso, cara. Eu sou filho da vizinha. Só pode!
- Calma, mano. Você tá nervoso e não pode tirar conclusões precipitadas.
- Sei lá. Por um lado pode até ser melhor assim, viu? Fiquei sabendo de umas coisas estranhas sobre minha mãe.
- Tipo o quê?
- Ela me contou um dia desses que pegou um pau e atirou em um gato. Assim, do nada. Maldade, meu! Vê se isso é coisa que se faça com o bichano!
- Caramba! Mas por que ela fez isso?
 - Pra matar o gato. Pura maldade mesmo. Mas parece que o gato não morreu.
- Ainda bem. Pô, sua mãe é perturbada, cara.
- E sabe a Francisca, ali da esquina?
- A Dona Chica? Sei, sim.
- Parece que ela tava junto na hora e não fez nada. Só ficou lá, paradona, admirada, vendo o gato berrar de dor.
- Putz grila. Esses adultos às vezes fazem cada coisa que não dá pra entender.
- Pois é. Vai ver é até melhor ela não ser minha mãe mesmo. Ela me contou isso de boa, cantando, sabe? Como se estivesse feliz por ter feito essa selvageria. Um absurdo. E eu percebo também que ela não gosta muito de mim. Esses dias ela ficou tentando me assustar, fazendo um monte de careta. Eu não achei legal, né? Aí ela falou que ia chamar um boi com cara preta pra me levar embora.
- Nossa, véio! Com certeza ela não é sua mãe. Nunca que uma mãe ia fazer isso com um filho.
- E é ruim saber que o casamento deles não está dando certo... Um dia ela me contou que lá no bosque, no final da rua, mora um cara que eu imagino que deva ser muito bonitão, porque ela chama de "Anjo". E ela disse que o tal do "Anjo" roubou o coração dela. Ela até falou que, se fosse dona da rua, mandava colocar ladrilho em tudo, só pra ele passar desfilando e tal.
- Nossa, que casamento bagunçado esse. Era melhor separar logo.
- É. Só sei que eu tô cansado desses papos doidos dela, sabe? Às vezes, ela fala algumas coisas sem sentido nenhm. Ontem mesmo ela disse que a vizinha cria perereca na gaiola... Já viu? Essa rua só tem doido.
- Vixe, mas a vizinha não é sua mãe?
- Putz, é mesmo! Tô ferrado de qualquer jeito.

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